Lideranças do esporte veem saída de secretário com preocupação: “É um cargo técnico e não político”

Gustavo Borges cita que general Marco Aurélio era aberto a conversas com o meio esportivo. Hortência diz que queda de braço não é boa para o esporte brasileiro.

Ministro Osmar Terra e Secretário Marco Aurélio Vieira — Foto: Abelardo Mendes Jr/ Ministério da Cidadania

A exoneração do general Marco Aurélio Costa Vieira da Secretaria Especial do Esporte – decisão publicada na edição desta quinta-feira do Diário Oficial da União – causou preocupação entre lideranças esportivas do Brasil. A saída de Vieira veio 107 dias após assumir o cargo no governo do presidente Jair Bolsonaro, que extinguiu o Ministério do Esporte transformando a pasta numa secretaria subordinada ao Ministério da Cidadania, comandado por Osmar Terra (MDB).

Redação SporTV comenta demissão do general Marco Aurélio Vieira da Secretaria Nacional do Esporte

O GloboEsporte.com procurou o general Marco Aurélio, mas não conseguiu contato até a publicação desta reportagem. A assessoria da Secretaria Nacional do Esporte disse que o agora ex-secretário não comentaria a demissão neste momento e só se pronunciaria daqui a alguns dias.

General da reserva do Exército desde 2002, Marco Aurélio foi diretor-executivo de operações da Rio 2016, além de ter participado do planejamento e da execução do revezamento da tocha olímpica pelas cinco regiões brasileiras.

Publicação do Diário Oficial da União desta quinta-feira, 17 de abril — Foto: Reprodução DOU

Para o ex-nadador Gustavo Borges, dono de quatro medalhas olímpicas, a saída do general Marco Aurélio é preocupante. Gustavo faz parte do grupo Atletas pelo Brasil, que reúne cerca de 60 atletas e ex-atletas de diversas modalidades pela melhoria do esporte nacional.

– Muito ruim a decisão. O Marco Aurélio tentou fazer uma agenda propositiva e teve dificuldades de emplacar suas ideias. Era aberto a conversas e estava a princípio num caminho bom para o esporte. Também o esporte precisa andar. Trocas e indefinições atrapalham. Pessoas que entendam de esporte é o que queremos – afirmou Gustavo Borges.

Gustavo Borges ex-nadador dono de quatro medalhas olímpicas — Foto: Luiz Henrique/GloboEsporte.com

Também integrante do Atletas pelo Brasil, o ex-judoca Flávio Canto, medalhista olímpico, contou ter se reunido nesta semana com o general Marco Aurélio.

– Eu estava anteontem com ele e com o ministro (Osmar Terra, da Cidadania, pasta à qual a Secretaria Especial do Esporte é subordinada no governo Bolsonaro), num ótimo papo. A gente sabe que está tudo emperrado mas pareceu haver ali um interesse em começar a movimentar as engrenagens. O ministro falou que as portas estavam abertas. Eu até postei a foto e fiz uma brincadeira: Tomara que daqui a alguns anos eu olhe essa foto com orgulho. Porque, na verdade, agora a gente precisa de execução. E, agora, o secretario saindo, eu fico sem entender muito. Ele estava lá com a gente – disse Flávio Canto.

Flávio destaca o perfil que julga necessário para o ocupante da Secretaria Especial do Esporte.

“Que esse lugar seja ocupado por alguém que tenha experiência, credibilidade e legitimidade para nos representar. Que seja alguém que tenha uma relação genuína com o esporte, que tenha conhecimento técnico. É um cargo técnico, não um cargo político de jeito nenhum. Acho que, se colocarem alguém com esse viés mais político do que técnico, os atletas vão se movimentar contra. A gente está precisando muito de uma secretaria forte, agora que a gente não tem o ministério.”

Campeã mundial e vice olímpica no basquete, a ex-jogadora Hortência afirmou que a “queda de braço não é boa para o esporte”.

– O nosso protesto foi pela demora nas coisas dentro do ministério, independentemente de quem esteja à frente do comando. Tivemos muitos problemas com lei de incentivo e indicações não efetivadas neste início de gestão. Tem gente trabalhando desde janeiro e que ainda não foi efetivado. É o caso do Emanuel, que está em Brasília e ainda não foi efetivado (Emanuel Rego foi indicado para o cargo de secretário da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem pelo general Marco Aurélio). Queremos que coloquem pessoas realmente técnicas para estar ali. O ministério está parado e a gente quer que ande. Essa disputa de braço não é boa para o esporte. Se pessoas começam a ser indicadas, mas não são efetivadas, é sinal de que algo está acontecendo. E nós queremos saber – disse Hortência.

Manifestação atletas #juntospeloesporte — Foto: Reprodução/Instagram

Medalhista olímpico e ex-recordista mundial dos 200 metros medley, o ex-nadador Thiago Pereira também comentou a saída do secretário e disse temer o futuro do esporte no Brasil.

– A gente sabe que o esporte tem a perder bastante com a saída do secretário, sabemos o quanto ele estava lutando por melhorias e por manter o padrão na Lei Piva, por exemplo. Eu sei que o Governo está nessa negociação da previdência, mas o pessoal não pode esquecer que o esporte não é só o esporte olímpico, um Pan-Americano, um Mundial. Isso é só 1%. A grande importância sim está nos esportes de base. O esporte tem o poder sim de mudar o mundo, tem a questão da inclusão e todos os outros benefícios que traz. É só seguir o exemplo de grandes países como os Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, que apoiam o esporte e formam pessoas melhores – disse Thiago Pereira.

Fabiana Beltrame, campeã mundial de remo — Foto: Leandra Benjamin

Campeã mundial de remo, Fabiana Beltrame também comentou sobre a saída do general Marco Aurélio pouco mais de três meses depois de assumir o cargo.

– A saída do general, assim como de outros que foram exonerados de seus cargos em pouco tempo de governo, só mostra como nossa política está sem rumo. Principalmente, o esporte, que já tinha perdido o ministério.

No último domingo, nomes do esporte como Hortência, Thiago Pereira, Fabiana Beltrame, Maurren Maggi, Poliana Okimoto, Hugo Hoyama e Marcelinho Machado foram às redes sociais protestando contra a falta de agilidade na Secretaria Nacional do Esporte. Eles usaram o mesmo texto nas publicações, destacando “o momento de profunda perplexidade diante das últimas notícias relacionadas ao Esporte Brasileiro”. “Definitivamente, não é isso que merecemos! Queremos gente que faça pelo Esporte, viva pelo Esporte e tenha muito amor pelo Esporte”, afirmaram os expoentes nas postagens, que terminavam com #juntospeloesporte.

Na semana passada, o Ministério da Cidadania anunciou um aporte financeiro de R$ 70 milhões no Bolsa Atleta para fortalecer o Programa e ampliar o número de atletas apoiados. Atualmente o Bolsa Atleta atinge 3.058 atletas nas categorias Olímpica, Paralímpica, Internacional e Nacional – um investimento de R$ 53,6 milhões. Desta maneira, para 2019, o programa terá aproximadamente R$ 123 milhões como orçamento.

Ainda na semana passada, o Comitê Olímpico do Brasil garantiu o recebimento dos recursos da Lei Piva, que estavam ameaçados porque o COB estava sem a Certidão Negativa de Débito.

O GloboEsporte.com entrou em contato com o ex-atleta de vôlei de praia Emanuel Rego, que confirmou a indicação para o cargo de secretário da ABCD. O campeão olímpico preferiu não comentar o assunto, mas disse que terá uma reunião ainda nesta quinta-feira para tentar entender o que está acontecendo com a pasta.

O GloboEsporte.com procurou o COB para comentar a saída do general Marco Aurélio, mas o comitê informou, via assessoria de imprensa, que, a princípio, não soltaria um posicionamento.

Por Fabio Grijó e Winne Fernandes

Fonte: globoesporte.globo.com

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