Técnicos estrangeiros, viagens custeadas, torneios pelo mundo: a nova realidade do tênis de mesa brasileiro

Na reta final de preparação para o Pan de Toronto, atletas comentam a estrutura atual da modalidade, elogiada por jovens e veteranos

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Orientações em inglês, com nítido sotaque francês. Preparador físico, Mikael Simon – o Mika – coordena as atividades iniciais com os mesatenistas brasileiros nesta semana no Rio de Janeiro. Eles estão na reta final de treinamentos para os Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá. Até domingo (12.07), a Escola de Educação Física do Exército será a casa dos jogadores. É onde finalizam a preparação para um torneio em que o Brasil tem força e favoritismo.

Primeiro a gente, como equipe, tem a missão de conquistar a medalha de ouro para o Brasil, mantendo a tradição, e nós três vamos unir forças para isso. No individual, fazemos parte dos favoritos. Não só pela vaga olímpica que vem com a medalha de ouro, mas pelo título em si, cada um vai atrás do seu. É uma competição interna saudável, faz parte do esporte”, afirma Thiago Monteiro (141º colocado no ranking mundial), integrante da equipe masculina de tênis de mesa no Pan, junto com Hugo Calderano (76º) e Gustavo Tsuboi (55º).

Os três garantem que a rivalidade fica restrita à disputa individual, e apenas na mesa. São amigos e se conhecem bem. Thiago, 34 anos e Gustavo, 30, já jogam juntos há muitos anos e fazem parte de uma geração que testemunhou uma verdadeira transformação na estrutura do tênis de mesa no Brasil.

Eu comecei quando não tinha tanto apoio e tive a sorte de ainda estar jogando quando as coisas melhoraram. Hoje o Brasil vive o melhor momento do esporte nessa parte de investimento. Uma das razões pelas quais o Pan é tão importante é para validar esse esforço. Foi uma evolução grande, até fico pensando como seria se eu tivesse 18 anos aqui e agora, como o Hugo Calderano, que já pegou técnicos estrangeiros, viagens custeadas. A minha geração teve que arcar com algumas despesas, Hugo Hoyama nem se fala, custeou a carreira toda. Mas é coisa do esporte: gerações mais novas precisam ter melhores condições que gerações antigas”, diz Thiago Monteiro.

Hugo Calderano, 19, já “cresceu” no tênis de mesa nesta nova realidade. “Hoje em dia sei que eu recebo todo o investimento e toda a estrutura que eu preciso para alcançar os meus objetivos”, resume.

Sequência de investimentos

Desde 2010, o Ministério do Esporte celebrou seis convênios com a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa (CBTM). Juntos, eles somam R$ 11 milhões. Os objetivos são a preparação de atletas no Brasil e no exterior, a estruturação de quatro centros de treinamento olímpicos (São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, São Paulo e Santos) e dois paralímpicos (Brasília-DF e Piracicaba-SP), a contratação de comissão técnica, a aquisição de equipamentos, a participação em competições internacionais, entre outros. Além disso, 256 mesatenistas – entre olímpicos e paralímpicos – recebem a Bolsa-Atleta, o que significa um aporte anual de R$ 3,9 milhões. Outros R$ 816 mil ao ano chegam a cinco jogadores do tênis de mesa paralímpico por meio da Bolsa Pódio.

Os resultados estão no dia a dia. Mika treina atletas como Tsuboi e Calderano na Alemanha e vem reforçando a preparação da Seleção Brasileira em momentos-chave, como a véspera do Pan. Michel Blondel, experiente treinador francês e consultor técnico da CBTM, também.

Eu já conheço alguns deles há um tempo. Treino com eles na Alemanha. Desde que o Jean-René Mounie é o treinador da equipe, trabalhamos juntos. Penso que é importante vir ao Brasil de tempos em tempos para continuar o trabalho e ajudá-los. O tênis de mesa está em evolução e crescendo muito neste país. Dentro de poucos anos, espero que tenhamos jogadores muito, muito fortes”, aposta Blondel.

Contratado como técnico da seleção masculina há sete anos pela CBTM, Jean-René é apontado pelos atletas como o “cérebro” da estruturação do tênis de mesa brasileiro. “A contratação do Jean-René foi fundamental para colocar uma direção nos investimentos. O dinheiro tem que ser usado da maneira correta, seguindo um planejamento. E isso ele executou muito bem. Seguindo as necessidades de cada um, todos temos um planejamento individual. E temos potencial de progredir ainda mais”, explica Gustavo Tsuboi, o atleta mais bem ranqueado das Américas e que buscará uma medalha de ouro inédita para ele na disputa individual no Pan.

Da mesa ao banco

Quem conhece bem o assunto “medalhas em Pan-Americanos” é Hugo Hoyama. Em sete edições, foram 15 pódios, sendo 10 ouros. Hoyama se prepara para o oitavo Pan da carreira, desta vez como técnico de seleção feminina.

Vai ser estranho (não jogar), pela história que tenho na competição. Mas coloquei na cabeça que a minha missão agora é outra, não a de pegar raquete, mas de ficar no banco passando a parte tática, técnica e, principalmente, emocional para as meninas. Ao disputar uma medalha, quem tiver a cabeça melhor, mais confiança e concentração – como eu tive quando consegui as medalhas – vai prevalecer”, diz Hugo Hoyama.

Para ele, a equipe feminina – formada por Lin Gui (129ª), Caroline Kumahara (154ª) e Ligia Silva (178ª) – chega ao Pan como uma das favoritas. “Elas estão bastante motivadas. Os resultados que obtiveram até agora em torneios grandes foram ótimos e isso nos credencia. Vendo-as na mesa, se elas colocarem o que estão jogando até agora no Pan, a chance de lutar por medalhas é grande. Elas sabem disso e vão jogar ponto a ponto, jogo a jogo, dia a dia. Estou confiando que posso sair de lá comemorando uma medalha junto delas”.

Para Caroline Kumahara, que treina em São Caetano do Sul (SP), o desafio do controle da ansiedade já começou. “Joguei o último Pan com a Ligia e com a Jéssica (Yamada), a gente tinha chance de medalha e foi uma frustração grande não ter conseguido. Mais até para elas, que são mais velhas, porque eu ainda não tinha muita noção, só cheguei lá e soltei o braço. Então, está uma expectativa grande outra vez que estou querendo controlar. Vamos jogar o nosso melhor, lutar a cada ponto, e vamos em busca da medalha, tanto por equipe quanto no individual”, diz.

Carol tem 19 anos e se sente privilegiada por desfrutar da atual estrutura da modalidade. “Não tem nem comparação o investimento que a gente tem hoje na nossa geração com as gerações anteriores. Muita gente tinha potencial e parou de jogar porque não tinha apoio. Tinha que ganhar uma seletiva para ter duas viagens por ano. Era difícil ter motivação. Dei sorte de cair nesta geração, de as Olimpíadas serem aqui ano que vem. Acho que por isso o investimento melhorou muito no esporte em geral”, avalia.

Com essa estrutura, esse conhecimento e experiência que podem ser adquiridos mais rápido por estarem disputando mais torneios, por terem treinadores estrangeiros, preparador físico, preparador mental, o que eles (atletas) têm que fazer é aproveitar. Não podem acomodar. Eles têm todo o suporte necessário para lutar melhor pelas medalhas”, reforça Hoyama.

Parceria com o Exército

Sede da reta final de preparação do tênis de mesa para o Pan, a Escola de Educação Física do Exército funciona dentro do Centro de Capacitação Física do Exército (CCFEx). O local recebe investimento de R$ 20,4 milhões do Ministério do Esporte em reformas e aquisição de equipamentos. Além do tênis de mesa, o CCFEx funcionará como instalação de treinamento para equipes nacionais de outras 19 modalidades.

Eu não conhecia a estrutura e fiquei feliz de saber que tem um local como este aqui para os atletas brasileiros. O tratamento que a gente tem recebido de toda a corporação é magnífico, o pessoal da alimentação está sempre disposto a nos ajudar se precisa fazer algo especial. Não nos falta nada”, explica Thiago Monteiro.

A estrutura ficou bem bacana, realmente é o que a gente precisava. Temos todas as condições aqui para fazer uma boa preparação”, acrescenta Calderano.

A equipe de tênis de mesa viaja para Toronto no dia 15. As disputas da modalidade no Pan serão de 19 a 25 de julho. Os campeões individuais garantem vaga nos Jogos Olímpicos Rio 2016.

Fonte: Brasil2016

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